O Cinema Revolucionário Português (1974-1976)

Sobre a nova hegemonia lingüística, simbólica e iconográfica criada após a Revolução dos Cravos, merece especial atenção a produção fílmica de Portugal após o 25 de abril. Arbitrariamente, será estabelecido o recorde temporal que abrange da Revolução até o ano de 1976 e a produção fílmica será aqui denominada como “Cinema Revolucionário”.

Lançado após o 25 de abril, Brandos Costumes[1] faz uma espécie de balanço geral do Estado Novo, da ascensão ao declínio, e das relações sociais na época do salazarismo: Deus, pátria, nação e autoridade. Em 1975 é lançado As Armas e o Povo[2], documentário realizado por diversos profissionais de cinema e com produção atribuída ao Sindicato dos Trabalhadores da Produção de Cinema e Televisão. As Armas e o Povo abrange o período entre o 25 de Abril e o 1º de Maio de 1974, - cobrindo a ação militar, a movimentação das tropas nas ruas e o desmantelamento do “aparelho social e político do fascismo”. Discute particularmente como o povo brindou a Revolução, mostrando as aspirações, as carências, os comentários sobre a guerra colonial, a chance de melhoria das condições de vida e possiblidades de um futuro em liberdade. Tudo culmina com a festa do 1º de Maio em Lisboa, como demonstração de que um novo tempo se instaurava em Potugal. Em 1976 aparece Deus, Pátria, Autoridade[3], dirigido por Rui Simões e financiado pelo Instituto Português de Cinema (IPC). O filme faz uma desconstrução crítica dos três pilares que sustentavam o salazarismo: “Deus” - a Igreja era o suporte de um regime social atrasado e imobilista; “Pátria” - um mito que serviu para justificar o colonialismo, em relação aos povos africanos; “Autoridade” - paternalista e repressiva, impondo a ordem que convinha à burguesia. Além disso, foca as transformações sociopolíticas operadas com o processo revolucionário.

Os três filmes citados acima mostram-nos como o mundo fílmico foi importante para criticar o passado fascista/salazarista e mostrar as aspirações de um futuro, como a constituição portuguesa de 1976 documentou, socialista. Abria-se em Portugal um novo tipo de linguagem: a linguagem revolucionária.

Esses filmes de linguagem, digamos, autêntica são suplantados em fama e prestígio por um filme realizado no último ano do século XX: Capitães de Abril[4]. Eis a sinopse: Em Portugal, na noite de 24 de abril de 1974, o rádio tocava uma canção proibida, "Grândola". Era o esperado sinal para o grupo militar que iria mudar o destino do país. Ao som da voz do poeta José Afonso, as tropas avançaram, marchando sobre Lisboa. Em contraste com a trágica tentativa do ano anterior, a Revolução dos Cravos se desenrolou como uma grande aventura, em busca da paz e de lirismo. Capitães de Abril está inserido em uma obra de afirmação nacional, de um país que procurava se reconciliar com o passado no momento em que abandonava um de seus símbolos, a moeda (Escudo), para adotar uma nova moeda de valor internacional, o Euro - a moeda que se tornaria corrente em boa parte da União Européia. Por este motivo, portanto, Capitães de Abril não pode e nem deve ser colocado no mesmo grupo de filmes feitos imediatamente após o 25 de Abril (filmes que como sabemos exaltava o fim do salazarismo e pregava revolução socialista). Mas vale lembrar que Capitães de Abril foi uma obra magistralmente bem realizada e que honrou o cinema português com prêmios inclusive nos EUA (dois Globos de Ouro, atriz e filme estrangeiro).


NOTAS

[1] 35 mm, 72 min. Direção: Alberto Seixas Santos. Produção: - Centro Português de Cinema/CPC, Tobis Portuguesa. Roteiro: Alberto Seixas Santos, Luíza Neto Jorge, Nuno Júdice. Elenco: Luís Santos, Dalila Rocha, Isabel de Castro, Sofia de Carvalho, Constança Navarro.
[2] 35 mm, 81 min. Direção: Coletivo dos Trabalhadores da Atividade Cinematográfica. Produção: Sindicato dos Trabalhadores da Produção de Cinema e Televisão.
[3] 16/35 mm, 103 min. Direção: Rui Simões. Produção: Instituto Português de Cinema/IPC, Radiotelevisão Portuguesa/RTP. Roteiro: Rui Paulo da Cruz.
[4] 35 mm, 126 min. Direção: Maria de Medeiros. Produção: Mutante Filmes, Radiotelevisão Portuguesa/RTP; JBA, Canal +, Arte France Cinéma, France 2 Cinéma (França); FilmArt (Espanha), Alia Film, RAI (Itália). Roteiro: Maria de Medeiros, Eve Deboise. Elenco: Stefano Accorsi/Voz de João Reis, Maria de Medeiros, Joaquim de Almeida, Frédéric Pierrot/Voz de Vítor Rocha, Pedro Hestnes Ferreira.